“Sizwe Banzi Está Morto” volta à cena em São Paulo e expõe a desumanização da segregação racial
- Isabel Branquinha

- há 2 horas
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Montagem idealizada por Réggis Silva, com direção de Ricardo Rodrigues, revisita o clássico sul-africano sobre o apartheid a partir do diálogo com os djélis (griôs) da África Ocidental. Temporada acontece de 26 de fevereiro a 29 de março de 2026, no Galpão do Folias.

Escrita por Athol Fugard, John Kani e Winston Ntshona em 1972, a peça “Sizwe Banzi Está Morto” é um dos textos fundamentais do teatro político do século 20 e retorna a São Paulo em uma nova montagem que propõe um encontro direto entre memória, narrativa e resistência. Idealizado pelo ator Réggis Silva e dirigido por Ricardo Rodrigues (de Prot{agô}nistas – O Movimento Negro no Picadeiro), o espetáculo cumpre 20 apresentações entre 26 de fevereiro e 29 de março de 2026, no Galpão do Folias, com duas sessões acessíveis com Libras e audiodescrição.
Ao lado de Réggis, está em cena o ator Carlos Francisco (do longa O Agente Secreto e reconhecido por Marte Um), formando uma dupla que sustenta a encenação como eixo central da experiência. A criação se constrói a partir de um diálogo com o modo narrativo dos djélis do oeste africano — conhecidos no Brasil como griôs, guardiões da memória coletiva — reforçando o caráter oral, vivo e comunitário da peça. A trilha sonora é assinada por Rincon Sapiência, conectando a pulsação contemporânea do rap ao debate histórico e social proposto pela obra.
“O eixo da criação está no trabalho dos atores. Por isso, queremos destacar o poder das palavras”, afirma Réggis Silva. A opção por uma cena enxuta acompanha esse princípio: a montagem evita excessos visuais e aposta em elementos multiuso, preservando o foco na interpretação e na força do texto.
A história: quando existir exige trocar de nome
A trama se passa durante as décadas sombrias do apartheid, na África do Sul. No estúdio fotográfico de Styles, em Porto Elizabeth, o cotidiano atravessado por violência institucional e controle racial se transforma em ponto de encontro para relatos que expõem, com humanidade e ironia, o mecanismo de apagamento imposto pelo Estado. É ali que Sizwe Banzi, pressionado pelo sistema e preocupado em sustentar a família, se vê diante de uma escolha brutal: alterar a própria identidade para caber nas regras de uma sociedade que o desumaniza.
A saída possível surge quando ele assume a identidade de Robert Zwelinzima, um homem morto — e, ao fazê-lo, abandona o próprio nome e legado para garantir um “novo começo”. A peça, então, desdobra o paradoxo: a sobrevivência como negociação constante com a ausência de direitos, e a dignidade como batalha cotidiana em um mundo que insiste em negar o básico — o direito de existir.
Réggis aponta que a reflexão ultrapassa o contexto histórico sul-africano e encontra ecos diretos no presente: “Precisamos conviver com a segregação diariamente, em todos os lugares e momentos. Basta olhar em volta: quantos negros circulam nos lugares que você frequenta?”, provoca o artista.
Memória e resistência como documento
Na montagem, o estúdio de Styles funciona como um oásis de esperança, onde identidades podem ser registradas, reinventadas e preservadas. A fotografia — que poderia ser apenas instrumento burocrático do controle — vira também documento de liberdade: testemunho da coragem de reescrever a própria história num mundo que tenta apagá-la. É nesse jogo entre registro e invenção, humor e brutalidade, afeto e denúncia, que a peça encontra sua potência.
O projeto foi contemplado pelo Fomento CULTSP PNAB Nº 22/2024 e prevê ações formativas e debates ao longo da temporada.
Atividades paralelas
Além das apresentações, o projeto inclui:
Bate-papos com público e elenco sobre processo criativo e temas artísticos, históricos e sociais ligados à obra.
Oficina “Teatralidades Negras”, ministrada pelo historiador Salloma Salomão, com 50 vagas, discutindo negritude, performatividades afrodiaspóricas e dramaturgias negras contemporâneas, a partir de referências como Leda Maria Martins e Adriana Paixão.
Serviço
Sizwe Banzi Está Morto
Temporada: 26 de fevereiro a 29 de março de 2026
Sessões: quinta a sábado, 20h; domingos, 19h
Local: Galpão do Folias — Rua Ana Cintra, 213, Campos Elíseos (SP) Tel.: (11) 3361-2223
Ingressos: R$ 20 (inteira) | R$ 10 (meia)
Duração: 70 minutos
Classificação: 14 anos
Acessibilidade: duas sessões com
Libras e audiodescrição









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