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“Bigorna” estreia no Sesc Vila Mariana com solo sobre diferença, memória e pertencimento

Escrito, dirigido e interpretado por Walmick de Holanda, espetáculo mistura autoficção, terror, humor e cultura pop

“Bigorna” estreia no Sesc Vila Mariana com solo sobre diferença, memória e pertencimento
Imagem: Julio Arakack

Uma história familiar atravessada por silêncio, medo e exclusão serve de ponto de partida para “Bigorna — Um thriller autoficcional”, solo escrito, dirigido e interpretado por Walmick de Holanda. O espetáculo estreia no dia 4 de agosto, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, onde fica em cartaz até 22 de agosto.


A montagem parte da história real de um tio do artista que permaneceu por cerca de três décadas em um quarto gradeado, em razão de uma condição nunca diagnosticada. A partir dessa lembrança, Walmick constrói uma investigação sobre os modos como famílias e sociedades tentam controlar, corrigir ou afastar pessoas consideradas diferentes.


Em cena, o artista entrelaça memórias da infância, da adolescência e da vida adulta com elementos ficcionais, histórias de outros homens gays e referências da cultura pop. O resultado é uma narrativa que aproxima teatro documental, autoficção, humor e terror para discutir pertencimento, identidade e exclusão.


A pergunta que atravessa o espetáculo é íntima e coletiva: o que faz alguém ser visto como um corpo “desviante”? A resposta não aparece de forma fechada. Ela surge em fragmentos da trajetória do próprio artista, que revisita a experiência de ter sido uma criança afeminada, um adolescente que sofreu bullying por ser gay e gordo e um adulto que encontrou pertencimento na comunidade dos Ursos.


Na infância, sem compreender completamente o isolamento do tio, Walmick criou explicações fantásticas para aquela presença familiar. Essas imagens, atravessadas pelo imaginário dos filmes de terror, tornaram-se uma das chaves dramatúrgicas de “Bigorna”. O medo, aqui, não funciona apenas como gênero, mas como linguagem para falar de vergonha, desejo de aceitação e violência simbólica.

Referências a Xuxa, Power Rangers, Michael Jackson, divas pop, filmes, animações e músicas dos anos 1980 e 1990 aparecem como parte do universo afetivo de uma criança tentando compreender o mundo pela fantasia. Ao mesmo tempo, a peça observa como o imaginário do monstro muitas vezes é usado para nomear aquilo que escapa da norma.


Além das memórias pessoais, a dramaturgia incorpora objetos, roupas e materialidades da infância, que funcionam como documentos afetivos. Esses elementos ampliam a dimensão autobiográfica da obra e conectam a experiência individual do artista a histórias de pessoas LGBTQIA+ e de todos aqueles que, em algum momento, sentiram que não cabiam nos lugares que lhes foram destinados.

O título sintetiza esse processo. A bigorna, ferramenta sobre a qual o metal é golpeado para ganhar forma, torna-se metáfora da violência sofrida, mas também da possibilidade de transformar impacto em criação.


“Percebi que o medo que eu tinha de me transformar no meu tio era, na verdade, o medo de me tornar o diferente da família, alguém destinado a viver à margem”, afirma Walmick.


Desenvolvido desde 2022, “Bigorna” nasceu da pesquisa de mestrado de Walmick de Holanda em Artes na Universidade Federal do Ceará, dedicada a processos de composição dramatúrgica autoficcional. O artista também participou do Núcleo de Direção da Escola Livre de Teatro de Santo André, com supervisão de Luiz Fernando Marques Lubi, durante o processo de criação da peça.

A montagem marca a estreia profissional de Walmick como dramaturgo e diretor. Ao reunir memória, imaginação, performance e linguagem pop, “Bigorna” propõe um thriller poético sobre a desconexão possível entre ser, estar e pertencer.


Serviço

Bigorna — Um thriller autoficcional

Atuação, direção e dramaturgia: Walmick de Holanda

Supervisão artística: Luiz Fernando Marques Lubi

Orientação teórica e provocação artística: Francis Wilker

Produção: Corpo Rastreado — Gabs Ambròzia

Temporada: de 4 a 22 de agosto de 2026

Local: Sesc Vila Mariana

Endereço: Rua Pelotas, 141 — Vila Mariana, São Paulo — SP

Referência: metrô Ana Rosa

Sessões:Terças, quartas e quintas, às 20hSábados, às 18h

Sessões extras:14 de agosto, sexta-feira, às 22h21 de agosto, sexta-feira, às 15h

Sessões com recursos de acessibilidade: 8 e 15 de agosto

Ingressos: R$ 50 inteira | R$ 25 meia | R$ 15 credencial plena

Vendas: site do Sesc SP, aplicativo Credencial Sesc SP e bilheterias das unidades

Informações: (11) 5080-3000

Duração: 70 minutos

Classificação indicativa: 14 anos

Estacionamento: 125 vagas

Paraciclo: 16 vagas gratuitas, mediante uso de trava de segurança


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