Entre a Cruz e os Canibais: Marcos Damigo revisita as origens de São Paulo em comédia farsesca no Teatro Arthur Azevedo
- Isabel Branquinha

- há 12 horas
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Em seu quinto espetáculo dedicado à história do Brasil, Marcos Damigo volta o olhar para a construção do mito bandeirante — e para a própria narrativa de formação de São Paulo — em Entre a Cruz e os Canibais.

Em tom de comédia farsesca, a montagem coloca em cena o desajuste entre o projeto colonial europeu e a realidade da Vila de São Paulo de Piratininga, expondo contradições que atravessam o imaginário paulistano até hoje.
A peça estreou em 22 de janeiro e segue em cartaz até 15 de fevereiro de 2026, no Teatro Arthur Azevedo (Av. Paes de Barros, 955 – Alto da Mooca), com sessões de quinta a sábado, às 20h, e domingos, às 19h. A temporada se relaciona com o período do aniversário da cidade: São Paulo completou 472 anos em 25 de janeiro de 2026, data que marca sua fundação, em 1554.
Uma farsa histórica ambientada em 1599
Ambientada em 1599, a trama reúne quatro personagens-tipo: Juiz, Governador-geral, Vereador e Procurador. A história começa com a chegada do Governador-geral do Brasil Dom Francisco de Souza à pequena vila — a única aglomeração europeia fora da costa, isolada pela Serra do Mar. Enquanto os moradores se revoltam com os “mandos e desmandos” do Juiz, cresce o temor de um ataque indígena: o Vereador sequestrou tupis aliados. Já o Procurador, um degredado salvo pelos tupis, aposta na vinda do Governador para fazer valer a lei que proíbe a escravização de indígenas — mas o governante, apelidado de “das Manhas”, pretende conduzir os conflitos de acordo com seus próprios interesses.
A partir desse embate, a peça explicita um dos paradigmas do projeto nacional: justamente quando São Paulo dá seus primeiros passos rumo ao “progresso”, com o avanço dos bandeirantes pelo interior, seus moradores passam a explorar mão de obra indígena em larga escala.
Humor como “comédia de escárnio” e crítica ao mito bandeirante
Damigo define a encenação como uma “comédia de escárnio”, dialogando com tradições populares que atravessam a história do teatro e ecoam autores brasileiros como Arthur Azevedo e Martins Pena. A estratégia, segundo ele, é usar o humor para revelar o grotesco oculto sob a ideia de modernidade que ajudou a sustentar interesses históricos — e que, em muitos aspectos, permanece naturalizada.
Para escrever Entre a Cruz e os Canibais, o artista contou com consultorias de Luís Alberto de Abreu e do historiador Paulo Rezzutti (via edital PROAC, em 2020), além do apoio do historiador Rodrigo Bonciani. A trilha sonora original de Adriano Salhab reforça o diálogo entre passado e presente, enquanto o elenco reúne José Rubens Chachá, Fábio Espósito, Daniel Costa e Thiago Claro França.
O figurino de Marichilene Artisevskis incorpora referências do modernismo e da tropicália, e o cenário é formado por lonas pintadas à mão pelos artistas Jonato e Ever. A criação de vídeo tem participação do cineasta guarani Richard Wera Mirim, morador da Terra Indígena Jaraguá. O espetáculo tem patrocínio da Google Cloud via PROMAC.
Serviço
Entre a Cruz e os Canibais
Temporada: 22 de janeiro a 15 de fevereiro de 2026
Sessões: quinta a sábado, às 20h; domingos, às 19h
Duração: 85 minutos
Classificação: 12 anos
Gênero: comédia musical
Local: Teatro Arthur Azevedo – Av. Paes de Barros, 955 – Alto da Mooca – São Paulo/SP
Telefone: (11) 2604-5558
Ingressos: R$ 20 (inteira) | R$ 10 (meia)
Bilheteria: abre 1h antes de cada sessão
Ingressos online: Sympla
Acessibilidade: 23 de janeiro – Libras e audiodescrição
Estacionamento: gratuito (vagas limitadas)









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