“Patente” segue em temporada gratuita e investiga a branquitude em diálogo com “Otelo”, de Shakespeare
- Isabel Branquinha

- há 10 horas
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Com apresentações nos teatros Arthur Azevedo, Alfredo Mesquita e Paulo Eiró, projeto inclui oficinas abertas de reflexão crítica e debates sobre privilégio brancoDesde 19 de março, está em cartaz o espetáculo “Patente”, montagem que dialoga com “Otelo”, de William Shakespeare, para investigar a branquitude e seus mecanismos de naturalização no Brasil.

Com direção de Anderson Negreiro, que assina a dramaturgia ao lado de Thiago Marques e Leonardo Chaves, a peça segue em temporada gratuita até 26 de abril.
A encenação parte de um prelúdio imaginário da tragédia shakespeariana. No palco, Iago e Otelo dividem a mesa antes dos acontecimentos da obra original, mas também são Leonardo e Thiago: um ator branco e um ator negro que discutem, no presente, a criação de “Patente”. Um jantar, preparado ao vivo pelos atores, atravessa essas duas camadas e transforma a cena em um espaço de tensionamento.
“‘Otelo’ é uma tragédia das aparências. Iago afirma no texto de Shakespeare: ‘não sou o que sou’. Essa lógica nos interessa porque a branquitude também opera por falsas pistas. O jantar parece afeto — mas será? O colorismo é outra dessas armadilhas. A peça expõe as engrenagens e deixa o público diante da pergunta”, afirma Leonardo Chaves, ator e dramaturgo.
Resultado de um processo conjunto, “Patente” foi inicialmente concebido por Leonardo Chaves durante o isolamento da pandemia, quando decidiu transformar inquietações sobre a branquitude em material cênico. Com a entrada de Thiago Marques e Anderson Negreiro, o projeto incorporou novas camadas e alterou sua perspectiva dramatúrgica.
“A perspectiva muda quando entram corpos negros em cena. A ideia do colorismo, por exemplo, surge das provocações do Anderson. A escolha de ‘Otelo’ também não é aleatória: ao trazê-la para o presente, percebemos como a branquitude se afirma como norma, como se o branco fosse o padrão invisível que organiza as relações”, diz Leonardo Chaves.
Ao borrar as fronteiras entre ficção e realidade, Shakespeare e contemporaneidade, “Patente” convida o público a reconhecer seu próprio lugar dentro do jogo dramatúrgico.
Oficinas de reflexão crítica sobre a branquitude
Como desdobramento da temporada, o projeto realiza três oficinas abertas ao público dedicadas à reflexão crítica sobre a branquitude. A atividade é fundamentada em materiais do Observatório da Branquitude e propõe um espaço estruturado de escuta e responsabilização.
A partir da apresentação de conceitos como branquitude, racismo estrutural, fragilidade branca e pacto narcísico, os participantes são convidados a responder perguntas orientadoras sobre privilégios, silenciamentos e dinâmicas raciais presentes em seus próprios contextos. A proposta não oferece respostas prontas, mas provoca deslocamentos e reflexão crítica.
Além das apresentações, a temporada inclui debates e segue pelos teatros Arthur Azevedo, Alfredo Mesquita e Paulo Eiró. Embora gratuito, o espetáculo conta com contribuição voluntária destinada à continuidade do projeto.
Sinopse
Iago recebe Otelo para um banquete logo após o mouro receber o título de general. Leonardo recebe Thiago para um jantar e discutirem a criação de um espetáculo que funciona como prelúdio de “Otelo”, de Shakespeare. As relações se movem em um jogo de pistas falsas e acobertação que só se revela no final. De mais real, apenas a comida, cozida de fato em cena.
Ficha técnica
Direção: Anderson Negreiro
Dramaturgia: Anderson Negreiro, Thiago Marques e Leonardo Chaves
Elenco: Thiago Marques e Leonardo Chaves
Iluminação: Gabriele Souza
Cenografia: Kleber Montanheiro
Trilha sonora: André Papi
Figurino: Éder Lopes
Videografismo: Vick Von Poser
Fotografia: Marcelle Cerutti
Cenotécnico: Evandro Silva
Design: Agência BNC (Genilson Rodrigues)
Assessoria de imprensa: Rafael Ferro e Pedro Madeira
Mídias sociais: Elã Comunicação (Marília Lino)
Mediação e curadoria de debates: Adriana Ferreira Silva
Produção: Parabasis Produções, Mosaico Produções e Cooperativa Paulista de Teatro
Serviço
Espetáculo — “Patente”
Duração: 70 minutos
Classificação: 14 anos
Entrada: gratuita, com retirada 1 hora antes do espetáculo
Contribuição voluntária (Pix): patente.apeca@gmail.com
Banco Santander – Leonardo Chaves Machado – conta poupança
Instagram: https://www.instagram.com/patente.apeca/
Teatro Arthur Azevedo
Datas: 19, 20, 21, 22, 26, 27, 28 e 29 de março de 2026
Horários: quintas a sábados, às 20h; domingos, às 19h
Teatro Alfredo Mesquita
Datas: 02, 03, 04, 05, 09, 10, 11 e 12 de abril de 2026
Horários: quintas a sábados, às 20h; domingos, às 19h
Teatro Paulo Eiró
Datas: 16, 17, 18, 19, 23, 24, 25 e 26 de abril de 2026
Horários: quintas a sábados, às 20h; domingos, às 19h
Oficinas — “Reflexão crítica à branquitude”
Casa Farofa — Rua Treze de Maio, 240, Bixiga, SP
Datas: 6/04 e 8/04, das 19h às 21h; 11/04, das 14h às 16h




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