Páginas da Vida, e o seu remake Lusitano
- Isabel Branquinha

- há 1 dia
- 3 min de leitura
Entre nostalgia e estratégia: por que uma história que já foi sucesso atravessa o Atlântico e volta como novidade?

Ser hiperconectada às vezes me leva a lugares meio escuros, e a um algoritmo que parece ter sido montado por alguém em surto criativo. Tem dias em que ele me coloca em hiperfoco em corrida, mesmo eu não sabendo respirar e andar ao mesmo tempo; em outros, me entrega fofocas de famosos que eu nem conheço. Mas, de vez em quando (os meus dias favoritos), ele me empurra para um movimento real acontecendo bem na nossa frente, e a gente nem sempre está olhando.
Foi assim que eu trombei com uma chamada da SIC anunciando uma adaptação portuguesa de Páginas da Vida. Sim. Aquela. A novela de 2006 que fez muito brasileiro chorar no banho: a avó “sem coração”, vivida por Lília Cabral, rejeita a neta por ela nascer com síndrome de Down, e a médica de bom coração interpretada por Regina Duarte acolhe a criança e cria como filha.
Agora, quase vinte anos depois, essa história ressuscita, não pelas nossas mãos, mas pelas de Portugal. E não como “reprise afetiva”, e sim como produto novo: outra escala, outro elenco, outra conversa com o público. A estreia já tem data marcada para fevereiro de 2026.
E aí eu travo num pensamento que me parece grande demais pra caber num teaser de 30 segundos: por que refazer o que já foi importado? Se o mercado de lá sempre foi alimentado por narrativas próprias — e por novelas nossas, em doses generosas — por que agora investir energia (e dinheiro, e campanha, e elenco) em dar “nova roupagem” a uma história que já existia?
Eu não tenho a pretensão de responder com sentença. Mas dá pra organizar as perguntas (e eu adoro organizar perguntas, porque é assim que a gente descobre o que realmente está em jogo).
Remake é medo ou é cálculo?
Existe uma hipótese bem pouco romântica e bem provável: risco. Em tempos de atenção esfarelada, apostar numa propriedade já conhecida é quase como comprar um seguro. Você parte de um título que já tem memória, conversa pronta, e um público que ao menos reconhece o nome. Criar do zero é mais caro, e mais vulnerável à indiferença.
Remake é nostalgia ou é estratégia de marca?
A nostalgia não é só sentimento; nostalgia é mecanismo de retenção. A gente volta porque lembra, e lembra porque volta. E isso vale pro público e vale pra indústria. O que antes era “clássico” hoje vira “IP reaproveitável”: remake, spin-off, continuação, universo expandido… tudo com cara de novidade e esqueleto de familiaridade.
Remake é preguiça ou é a linguagem sendo engolida pelo dado?
Aqui é onde meu lado mais cismado acorda. Porque, quando a gente fala em “nada se cria, tudo se copia”, a frase vira pequena demais pra explicar o tamanho do fenômeno. Não é só copiar: é desgastar uma fórmula até ela virar a única forma aceita de contar história, porque ela performa. Porque ela segura. Porque ela entrega número.
E aí a “jornada do herói” deixa de ser uma ferramenta pra virar um corredor estreito. Não é mais “uma maneira” de narrar; vira “a maneira segura”. A pergunta que me assombra é simples e horrível: em que momento a coragem de errar virou luxo?
Pra não parecer que estou falando do mundo abstrato, eu olho pro nosso quintal. A própria Vale Tudo voltou em 2025 cercada de expectativa e, pelo menos em parte da imprensa especializada, a novela terminou com cheiro de “não foi tudo isso”. Aí fica a questão certa: foi o remake em si que não fazia sentido? Ou foi o conjunto da obra que não sustentou a promessa?
E, do outro lado, a continuação também virou um esporte: Êta Mundo Melhor! estreou em 2025 como nova etapa de um sucesso anterior. Funciona? Depende do dia, do termômetro, do recorte, da bolha, mas o movimento está aí, gritante: o passado virou matéria-prima do presente.
No fim, talvez a pergunta que mais importa não seja “remake é bom ou ruim?”. A pergunta é mais incômoda:
Estamos com medo de inovar ou o mercado está tão condicionado à fórmula que rejeita inovação antes mesmo de entender o que ela é?
Eu deixo isso aqui não como veredito, mas como convite. Quero muito saber o que você acha: você sente que está vivendo uma era de reciclagem? Ou sente que isso é só mais uma fase da indústria, e a gente que está mais atento agora?
E, sim: eu já aceitei meu destino. Vou dar meus pulos para assistir à versão portuguesa, porque a curiosidade é uma entidade viva e ela mora comigo. E ver Maria João Bastos assumindo o arquétipo que ficou tão marcado na memória brasileira tem tudo para ser… no mínimo, irresistível.










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