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DeSúbito Cia estreia no Sesc Ipiranga “CORAGEM – um lugar melhor do que aqui”, peça sobre negligência e colapso no sistema de saúde

Texto de Carla Zanini encerra a trilogia “Afeto, Raiva e Coragem” e transforma um hospital público à beira do colapso em microcosmo do Brasil contemporâneo. Temporada vai de 27 de fevereiro a 12 de abril, com sessões às sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 18h.


DeSúbito Cia estreia no Sesc Ipiranga “CORAGEM – um lugar melhor do que aqui”, peça sobre negligência e colapso no sistema de saúde
Imagem: Caio Oviedo

Quando as instituições falham, o cuidado vira ato radical. É a partir dessa premissa que a DeSúbito Cia. estreia “CORAGEM – um lugar melhor do que aqui” no Sesc Ipiranga, espetáculo inédito que conclui a trilogia escrita por Carla Zanini sobre violência, afeto e colapso social no Brasil de hoje. Dirigida por Carla Zanini e Ricardo Henrique, com produção da Ventania Cultural, a montagem coloca em cena um hospital público em estado de precarização extrema — e faz do próprio espaço um organismo em ruína, atravessado por humor, drama e suspense.


A trama começa durante a comemoração do aniversário de uma enfermeira que aguarda a aprovação de uma cirurgia urgente. No meio do cotidiano saturado por protocolos falhos e decisões fora do alcance de quem trabalha ali, o impossível irrompe: uma criança cai do céu.


O acontecimento surreal funciona como disparador para uma narrativa que abre fissuras na realidade e expõe, por meio do absurdo, as camadas de violência estrutural que atingem tanto pacientes quanto profissionais de saúde.


Para Carla Zanini, o espetáculo amplia a pesquisa dramatúrgica iniciada em “Afeto – uma história de amor (violenta e difusa) entre mulheres quebradas” e “Raiva – nós temos um cão que morde”, deslocando o foco para o ambiente hospitalar como microcosmo de um país em falência institucional. Em cena, a precarização do trabalho, a sobrecarga física e emocional e a violência cotidiana dentro das instituições se somam à frustração diante de um sistema que transforma o direito à saúde em espera, burocracia e exaustão.


Com preparação de atuação de Felipe Rocha, o elenco — Noemi Marinho, Jane Fernandes, Lucelia Sergio e Samanta Precioso — interpreta mulheres atravessadas por esse cotidiano de colapso: personagens que insistem em sustentar a vida, construir vínculos e imaginar outras formas de existir quando as certezas se desfazem. Entre corredores deteriorados e regras que já não protegem, o cuidado deixa de ser vocação e passa a ser gesto de resistência.


Uma encenação entre o real e o delírio

A montagem combina realismo e surrealismo em um espaço cênico instável, onde o hospital não é apenas cenário, mas campo de tensão permanente. A trilha sonora original de Mini Lamers atua como dramaturgia sonora, conduzindo a experiência sensorial do público: ela não ilustra, mas pulsa — acentua o tempo da espera, a sensação de perigo e o desgaste emocional.


A cenografia de Stephanie Fretin parte de um hospital precarizado, mas se desdobra ao longo da ação, abrindo novos ambientes, criando fissuras e reorganizando a percepção do espaço conforme os acontecimentos se acumulam. A iluminação de Dimitri Luppi intensifica essa oscilação entre o concreto e o delírio. Já os figurinos de Andy Lopes se transformam durante a peça, registrando no corpo das personagens o desgaste, a urgência e o acúmulo daquele dia — como elemento narrativo vivo.


Trilogia “Afeto, Raiva e Coragem”

As três obras da trilogia investigam múltiplas formas de violência — políticas, institucionais, domésticas e afetivas — e os gestos de resistência possíveis no Brasil contemporâneo, sempre a partir de situações íntimas que se expandem para experiências públicas e coletivas. Ao encerrar esse percurso, “CORAGEM – um lugar melhor do que aqui” reafirma cuidado e afeto não como consolo, mas como força ética e política capaz de sustentar a travessia em tempos de colapso.


Serviço

CORAGEM – um lugar melhor do que aqui

De Carla Zanini

Direção: Carla Zanini e Ricardo Henrique

Temporada: 27 de fevereiro a 12 de abril (2026)

Sessões: sextas e sábados, às 20h; domingos, às 18h

Local: Teatro — Sesc Ipiranga

Ingressos: R$ 60 (inteira) | R$ 30 (meia) | R$ 18 (credencial plena) — via sescsp.org.br ou presencialmente nas unidades do Sesc

Duração: 90 min

Classificação: 14 anos


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