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Kiko Rieser estreia “Nós, os Justos” no Teatro Itália com retrato contundente sobre justiçamento e cultura do cancelamento

Nova peça escrita e dirigida por Kiko Rieser, com a Companhia Colateral, transforma um rumor corporativo em parábola sobre julgamentos acelerados e guerras de narrativa. Estreia em 6 de março, em São Paulo.


Kiko Rieser estreia “Nós, os Justos” no Teatro Itália com retrato contundente sobre justiçamento e cultura do cancelamento
Imagem: Ronaldo Gutierrez

A linha entre fazer justiça e praticar o justiçamento parece cada vez mais fina — e, muitas vezes, o veredito chega antes das provas. É desse terreno instável que nasce “Nós, os Justos”, nova peça escrita e dirigida por Kiko Rieser e encenada com a Companhia Colateral, que estreia em 6 de março (sexta-feira), às 20h, no Teatro Itália, em São Paulo. A sessão para convidados acontece em 9 de março.

Ambientada em uma grande empresa, a obra acompanha o efeito dominó de um rumor sobre a conduta de um funcionário — e como essa suspeita se espalha pelos corredores, contaminando relações, decisões e reputações. Mais do que um caso individual, o espetáculo investiga como a cultura do cancelamento também opera fora das redes, no contato direto, corroendo o direito à defesa e diminuindo o espaço da escuta.


Um tribunal em cena

Escrita originalmente em 2018, quando o termo “cultura do cancelamento” ainda começava a ganhar corpo, a peça chega a 2026 mantendo sua estrutura central — com a atualização do conceito de compliance, hoje decisivo no ambiente corporativo. A encenação cria uma espécie de julgamento permanente, em que a atenção do público é mantida pelo atrito constante entre versões.


Rieser explica: “A gente tem a alegoria na peça dos quatro componentes principais do tribunal: o juiz, a acusação, a defesa e a testemunha. A encenação foi pensada para que cada um cumpra esse papel simbólico, transformando o palco nesse espaço de julgamento que não oferece saída fácil ao público.”


Guerra de narrativas

Na trama, um processo interno de apuração é instaurado — mas aquilo que deveria ser objetivo se transforma rapidamente em disputa de interesses, percepções e discursos, em que “verdade” vira construção instável. Sem provas conclusivas, o caso passa a ser definido menos pelos fatos e mais pela força das narrativas, num jogo em que a complexidade é sacrificada em favor de leituras simplificadas.

“A peça não entrega respostas; apenas as oferece dialeticamente, convocando à escuta antes de qualquer tomada de posição”, pontua o autor. Para ele, vivemos um tempo em que julgar por princípios próprios virou gesto naturalizado — e perigoso.


A “manada” como personagem invisível

Um elemento-chave é a presença invisível de um quinto personagem: um coro formado pelos demais funcionários, apelidados ironicamente de “a manada”. Mesmo fora de cena, são eles que alimentam rumores, vazam informações, pressionam, vigiam e mudam de lado conforme a conveniência — um tribunal informal que se estabelece nos bastidores da empresa e molda destinos.


Rieser sintetiza o ponto de tensão: quando a identificação imediata com uma história se torna mais importante do que o compromisso com a realidade, o risco de injustiça cresce. A expectativa, segundo ele, é que o público saia com a dúvida plantada — e com vontade de continuar a conversa depois do teatro.


Direção: “matar o dramaturgo”

Dirigir o próprio texto, para Rieser, exige desapego radical. Na sala de ensaio, ele diz que “mata o dramaturgo” em favor da cena: corta, reorganiza, reescreve se necessário. Na montagem, um conceito estrutural reforça a sensação de julgamento contínuo: os atores não saem mais de cena, coexistindo em planos paralelos mesmo quando não estão no centro da ação.


Sinopse curta

Em uma grande empresa, rumores sobre a conduta de um funcionário se espalham e fazem com que seus colegas exerçam forte pressão por sua demissão. É instaurada uma sindicância, onde nada do que é revelado é absoluto, tornando-se impossível tomar partido de qualquer lado sem possibilidade de erro. Todos os personagens são tragados por uma bola de neve que trará consequências imprevisíveis.


Ficha técnica

Texto e direção: Kiko Rieser

Elenco: Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio, Thamiris Mandú

Assistência de direção: Letícia Calvosa |

Stand-in: Natália Moço

Cenografia: Bruno Anselmo |

Desenho de luz: Rodrigo Palmieri

Figurino: Marichilene Artisevskis |

Trilha sonora original: Marcelo Pellegrini

Preparação corporal: Bruna Longo |

Consultoria de queda e dublê: Aline Abovsky

Produção: Rieser Produções e Rodri Produções |

Realização: Companhia Colateral

Assessoria de imprensa: Arteplural – M Fernanda Teixeira e Mauricio Barreira


Serviço

Nós, os JustosLocal: Teatro Itália — Av. Ipiranga, 344 — Centro — São Paulo

Estreia: 6 de março (sexta-feira), 20h

Temporada: até 26 de abril

Sessões: sextas e sábados, 20h | domingos, 19h

Ingressos: R$ 90 (inteira) | R$ 45 (meia)

Classificação indicativa: 14 anos


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