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“Mural da Memória”, dramaturgia de Ave Terrena, estreia temporada popular no Teatro Manás e revisita feridas abertas da ditadura militar

Novo trabalho do LABTD mergulha em 11 anos de pesquisa e propõe olhar muralista sobre desaparecimentos políticos e impactos permanentes do regime

“Mural da Memória”, dramaturgia de Ave Terrena, estreia temporada popular no Teatro Manás e revisita feridas abertas da ditadura militar
Imagem: Fabricio Augusto

O LABTD – Laboratório de Técnica Dramática – estreia “Mural da Memória”, espetáculo com dramaturgia de Ave Terrena e direção de Diego Moschkovich, que investiga a violência de Estado durante a ditadura militar e suas reverberações no presente. A temporada popular acontece até 30 de novembro, no Teatro Manás, na Bela Vista, com sessões de quinta a sábado às 20h30, e no domingo às 16h e 19h. Os ingressos variam entre R$ 15 e R$ 30, com venda pela Sympla e na bilheteria.

O espetáculo marca a conclusão de mais de uma década de pesquisa do LABTD sobre memória política, justiça de transição, violência institucional e seus desdobramentos socioculturais. A peça se conecta diretamente com criações anteriores do grupo — E Lá Fora o Silêncio, O Corpo que o Rio Levou e As 3 Uiaras de SP City — consolidando um percurso criativo dedicado a revisitar histórias apagadas pelo Estado.


Uma dramaturgia muralista para enfrentar o passado

Em uma realidade ficcional onde a Lei da Anistia é revogada, o país passa a julgar desaparecimentos políticos. O primeiro réu é um General quatro estrelas, acusado de ocultar os corpos de três vítimas da repressão. Durante o julgamento, o militar tenta sustentar sua narrativa diante dos depoimentos contundentes de sobreviventes e testemunhas.

Ave Terrena define o trabalho como um mural dramatúrgico, construído a partir de múltiplas vozes, registros e camadas:

“É uma dramaturgia muralista, que reúne identidades e origens sociais diversas — todas brutalmente atravessadas pela ditadura. Era fundamental representar essa pluralidade de experiências silenciadas.”

As personagens — um locutor de rádio comunitária, uma guerrilheira e uma travesti, prostituta e aspirante a atriz — foram criadas a partir do extenso material reunido ao longo da pesquisa. O LABTD entrevistou ex-presos e sobreviventes, mergulhou em acervos como o da Comissão da Verdade, pesquisou o Bajubá (arquivo de memória LGBTQIA+), estudou a noite paulistana dos anos 70 e 80 e investigou rádios independentes e registros sobre a Copa de 1970.


Entre memória e justiça

A peça opera como um gesto de reivindicação simbólica — um espaço onde desaparecidos políticos permanecem vivos enquanto a sociedade não descobre seus destinos. Para o ator Diego Chilio:

“Os corpos não encontrados continuam existindo enquanto seus nomes não forem apagados. O espetáculo é, também, uma busca por um encerramento digno.”

A encenação, construída como um painel vivo, mantém todo o elenco em cena durante todo o tempo, explorando simultaneidade e sobreposição temporal. O diretor Diego Moschkovich destaca:

“O mural é estático, enquanto o teatro é limitado pelo tempo. Nossa proposta foi criar estratégias para reproduzir essa sensação de camadas coexistentes.”


Audiovisual, movimento e música ao vivo

A montagem transforma o palco em uma espécie de mesa redonda televisiva, evocando programas esportivos como imagem metafórica para debate público e disputa de narrativas. Projeções de documentos da ditadura, vídeos históricos, arquivo pessoal da equipe e registros da repressão a travestis — incluindo referências às pioneiras Valéria, Rogéria, Aloma, Marcinha do Corinto, Neon Cunha e Thais Azevedo — compõem o ambiente visual.

A trilha sonora, com músicas originais compostas para o espetáculo, é executada ao vivo por Gabriel Barbosa e Felipe Pagliato, que também operam sonoplastia, voz e instrumentos alternativos, como ossos de animais.

A direção de movimento, assinada por Danna Lisboa — referência das danças urbanas no Brasil — cria uma síntese potente entre hip hop, waacking, ballroom e linguagem teatral.


SINOPSE

Com a revogação da Lei da Anistia, desaparecimentos ocorridos durante a ditadura militar passam a ser julgados. Um General quatro estrelas é o primeiro a enfrentar o tribunal. A partir dos depoimentos das testemunhas, emergem as histórias de três desaparecidos: um locutor de rádio comunitária, uma guerrilheira e uma prostituta travesti. Suas vidas se cruzam em uma dramaturgia muralista que conclui onze anos de pesquisa do LABTD.


SERVIÇO

Mural da Memória – Temporada Popular até 30 de novembro 

Quinta a sábado – 20h30 Domingos – 16h e 19h

Local: Teatro Manás Rua Treze de Maio, 222 – Bela Vista, São Paulo

Duração: 90 min Classificação: 14 anos

Ingressos: R$ 30 (inteira) | R$ 15 (meia)


 Cota trans gratuita disponível pela Sympla

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