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Vamos falar de cultura queer?

Sugiro a você que está me lendo fazer um teste – vá até alguém que você conhece e pergunte: o que é cultura? Ou pergunte para você mesmo: o que é cultura? Normalmente, a resposta imediata é alguma coisa assim como: “ah... Cultura é cinema, teatro, pintura...” E daí vão parando os exemplos.


Miguel Falabella e Diogo Vilela em 'A Gaiola das Loucas'
Imagem: Miguel Falabella e Diogo Vilela em 'A Gaiola das Loucas' - Divulgação

 

E se você insistir na pergunta, buscando uma definição do que é, vai notar que as pessoas ficam intimidadas. Essa intimidação se deve ao fato de que as pessoas, de um modo geral, entendem a cultura como algo fora da vida delas. Uma coisa que está alheia ao dia-a-dia da casa, do trabalho ou da escola. Como se não estivesse aí, ao nosso redor. E mais: as pessoas entendem cultura como algo inacessível, inalcançável. Isso principalmente porque cultura está ligada à ideia de mercadoria criada pelo capitalismo em que vivemos – consequentemente uma ideia de consumo, o que nos leva ao conceito de ‘produtos’ que, de um modo geral custam algum valor. Nessa lógica, cultura é sempre algo caro e longe de onde o indivíduo está.

 

Será que é assim mesmo?

 

Essa ideia é normalmente meu primeiro conteúdo em aulas de História do Teatro. Em primeiro lugar,precisamos entender que cultura é tudo que nos identifica e nos representa como grupo social – e daí, você pode pensar em país, cidade, comunidade, família, tribo indígena, hemisfério, não importa quem ou onde. Se existeum agrupamento humano, ele vai se organizar de alguma forma por meio e a partir do seu convívio. Desse modo, podemos entender que a cultura está em tudo, em todos e em todo lugar. Não fora da gente. Ninguém vive sem a noção de cultura. Mas é preciso entender que cultura é uma matéria espontânea – que pode ser cultivada.

 

Ela nasce, ela surge, ela aparece e floresce.

 

Hábitos e costumes – o que a gente come ou o que a gente veste, a língua que a gente fala (inclusive nossas expressões, gírias e até palavrões), as nossas religiões e tradições, as manifestações populares, a maneira como nos organizamos socialmente e politicamente, nossas festas, nossas artes! Tudo cultura.

 

Veja que até agora eu falei em uma ideia ampla e coletiva de cultura. Mas quando a gente chega ao campo das artes, começamos a falar sobre manifestações individuais ainda que – de certo modo sejam coletivas e cumulativas. E o que quero dizer com cumulativas? É a ideia de sobreposição de experiências culturais diversas sobre um único produto. Para você que me segue e sempre espera um pensamento voltado para o campo do Teatro musical, vou tomar alguns exemplos.

 

Começo com A Gaiola das Loucas. Primeiro, um ator francês – Jean Poiret – resolve escrever uma peça em 1973. Na encenação, ele se une a um outro ator: Michel Serrault. O sucesso no palco é tamanho que se transforma em cinema, ganhando uma nova linguagem, numa produção franco-italiana de 1978 (veja, já falamos de duas nações) trazendo para a criação a genialidade de Ugo Tognazzi ao lado de Serrault. Depois disso, a obra ganha duas sequências cinematográficas ainda europeias, o que atualmente chamamos de franquia. E é só em 1983, que Harvey Fiernstein (esse mesmo, de Hairspray) resolve fazer um musical – que é o que a gente conhece hoje, com as devidas atualizações.

 

Mas não para por aí, aquele primeiro produto cinematográfico, em 1986, ganha também uma versão estadunidense com um elenco milionário e estelar que incluía Robin Williams, Nathan Lane, Christine Baranski, Diane Wiest, Gene Hackman, Calista Flockhart e um monte de gente notável. Daí, o musical ganha força para revivals e comercialização mundo afora. Em cada uma dessas produções, a cultura queer foi sendo renovada e reavaliada, os costumes da tal família de bem foram sendo confrontados, as piadas locais sendo incorporadas e novas vozes anexadas, como as de Miguel Falabella e Diogo Vilela no Brasil.

 

E isso, é só o começo. Sim. Cultura é uma coisa muito simples, mas muito complexa!

 

 

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