“As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência” transforma Pirandello e Aimé Césaire em um ataque direto ao racismo estrutural no Brasil contemporâneo
- Isabel Branquinha

- há 3 dias
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Em cartaz no Sesc Vila Mariana até 7 de dezembro, espetáculo dirigido por Anderson Negreiro e Daniela Manrique coloca luz — literalmente — sobre disputas de visibilidade, autoria e existência

O Sesc Vila Mariana apresenta, até 7 de dezembro, o espetáculo As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência, uma criação que articula o metateatro de Luigi Pirandello e a poética anticolonial de Aimé Césaire para discutir racismo estrutural, apagamento e representação no Brasil de hoje.
A montagem parte de uma situação aparentemente cotidiana: durante o ensaio de uma comédia de Pirandello, funcionários negros do teatro interrompem a cena e reivindicam o direito de narrar a própria história. A partir desse gesto, o palco se torna arena de embate entre corpos brancos e negros, entre quem está no centro e quem é mantido na margem, entre representação e existência.
Do metateatro ao manifesto cênico: quando personagens insurgem
Idealizado por Anderson Negreiro e pela diretora colombiana Daniela Manrique, o projeto nasce do encontro entre dois autores separados por tempo e geografia — Pirandello e Césaire — mas unidos por uma mesma urgência: a luta pelo direito à autoria.
Em 2021, Negreiro trabalhou com o texto “E os cães se calavam”, presente na coletânea de poemas As Armas Milagrosas, de Aimé Césaire. Revisitando depois Seis personagens à procura de um autor, de Pirandello, o diretor fez uma pergunta central:
E se essas personagens que atravessam a coxia pedindo existência forem, na verdade, corpos reais — racializados — reivindicando presença no mundo?
Na dramaturgia, as seis personagens pirandellianas são substituídas por figuras da obra de Césaire — o Rebelde, a Mãe e o Coro — agora representadas como trabalhadores negros de um teatro que decidem interromper o ensaio e exigir luz, voz e lugar.
A luz como dramaturgia: quem está no centro? quem é empurrado à margem?
Inspirado no livro “Imagens da Branquitude”, de Lilia Schwarcz, Anderson Negreiro percebeu que o próprio dispositivo da luz poderia revelar a estrutura racial que organiza os olhares.
“A luz é a dramaturgia que separa os corpos. Ela torna visível uma estrutura que o racismo tenta esconder.”, afirma o diretor.
Assim, o desenho de luz de Matheus Brant organiza o palco em torno de um cubo central luminoso, símbolo do centro de visibilidade. Dentro dele, estão o Primeiro Ator e a Primeira Atriz, alegorias da branquitude. Fora dele, na margem escura, permanecem os funcionários negros — que operam o teatro, mas têm o acesso ao centro permanentemente negado.
Sem cenário fixo, a montagem utiliza carpete e poucos adereços, deixando a iluminação assumir papel narrativo e político. A peça se estrutura como um ensaio interrompido, no qual personagens marginalizadas enfrentam a hierarquia cênica e simbólica que define quem pode existir no palco — e no país.
SINOPSE
Durante o ensaio de uma comédia de Pirandello, funcionários negros do teatro interrompem a cena e reivindicam o direito de contar sua própria história. A partir desse confronto, o palco se transforma em campo de disputa entre visibilidade e apagamento, representação e existência. A peça fricciona Seis personagens à procura de autor com Os cães se calavam, discutindo raça, narrativa e ruptura com o olhar colonial.
SERVIÇO
As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência
📅 14 de novembro a 7 de dezembro
⏰ Qui a sáb, às 20h · Dom, às 18h
📍 Sesc Vila Mariana
🔞 Classificação: 14 anos
⏱️ Duração: 120 minutos
♿ Sessões com acessibilidade (audiodescrição e Libras): 29 e 30/11 · 07/12
🎫 Ingressos:
R$ 18 (credencial plena)
R$ 30 (meia: estudantes, idosos, PCD, professores da rede pública)
R$ 60 (inteira)
Disponíveis no app Credencial Sesc SP, no portal ou nas bilheterias.









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